Os alunos da Escola Estadual Heckel Tavares, no Jardim Helena, extremo leste de São Paulo, se deparam todos os dias com fotos estampadas em painéis em suas salas de aula. Neles estão familiares, pessoas importantes das duas comunidades carentes que cercam a unidade escolar, ex-alunos e, também, 12 mulheres com histórias que as conectam: todas são sobreviventes de violência doméstica.

“As 12 mulheres” é uma campanha desenvolvida pelo Projeto Bastê, a fim de estampar os rostos dessas sobreviventes em um calendário, cada uma em seu mês de aniversário, para debater os casos de violência contra mulher.

Na quarta-feira (25), Thais Santesi, Silvana Phoenix e Cristiane Machado estiveram na escola pela primeira vez para verem os painéis com seus rostos e para debater com as alunas e seus familiares.

Thais Santesi, fundadora do Projeto Bastê, se emocionou ao saber que a escola estadual estava discutindo esse tema, especialmente por ver seu projeto representado. Thais reforçou que o trabalho que o projeto desenvolve é paliativo, pois lida com casos que estão acontecendo ou que já aconteceram. Por outro lado, a escola consegue articular de uma forma em que trata o problema pela raiz.

“É só a educação que vai nos fazer parar de morrer. O agressor que bate em mulher hoje não tem muito o que fazer, mas e o jovem de amanhã? Como que fazemos isso? Com educação. A ação da Jucilene é linda e importante, porque ela está ajudando a salvar vidas de pessoas que ainda nem nasceram.”

No Brasil, segundo dados do Datafolha (2021), encomendados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, uma a cada quatro mulheres, acima dos 16 anos, relata ter sofrido algum ato de violência doméstica apenas no último ano. Em números totais, isso significa que aproximadamente 17 milhões de mulheres (24,4%) sofreram violência, dentre elas física, psicológica ou sexual nesse período.

“Basta de violência contra à mulher. Está na hora da Educação também tratar desse tema. Em breve queremos lançar um programa inspirado nessa iniciativa. Se sua escola já faz alguma coisa sobre o assunto, mande para a Seduc, porque queremos aprender com vocês. Nós vamos enfrentar esse tipo de situação também na escola”, disse o secretário da Educação do Estado de São Paulo, Rossieli Soares.

A diretora da escola Heckel, Jucilene Araujo, também sobrevivente de violência doméstica, decidiu levar esse debate à escola, com o intuito de ajudar seus estudantes na luta diária contra esse problema. Jucilene é bastante engajada com as comunidades do entorno da Heckel e quis estampar seus rostos nas salas de aula, por acreditar que cada pessoa forma a escola.

A discussão não se prendeu apenas às instalações, Jucilene também faz questão de debater e lembrar que seus alunos e a comunidade têm apoio e podem sair dessa condição, e reforça a importância em denunciar.

“Os agressores não podem ficar no anonimato. Quando nós recebemos uma mãe, às vezes ela está nesse anonimato, como eu também já estive. A gente vem como se nada estivesse acontecendo, mas não queremos mais voltar para aquele lar agressivo, aquele lar que pode levar à morte”, comentou a diretora, emocionada.

Ação em escola no extremo leste debate violência contra mulher Ver todas notícias